
Por Redação Folha de Sabará | 19 de outubro de 2026
O Brasil se despede de uma das vozes mais marcantes de sua música popular. Benito Di Paula morreu na noite de domingo, 18 de outubro de 2026, aos 84 anos, em São Paulo, deixando uma obra que atravessou décadas, embalou histórias de amor e transformou sentimentos cotidianos em canções inesquecíveis.
O cantor, compositor e pianista estava internado no Hospital 9 de Julho, na capital paulista, e enfrentava um câncer de próstata havia cerca de um ano. Sua morte foi confirmada pela assessoria do artista.
Benito deixa saudade em quem cresceu ouvindo seus discos, acompanhou suas apresentações na televisão ou descobriu, anos depois, a beleza de um samba feito com piano, sentimento e personalidade.
Entre tantas composições, uma passagem de Do Jeito Que a Vida Quer, de 1976, ganha um significado especial neste momento de despedida:
“É que meu samba me ajuda na vida”
A frase traduz o espírito de um artista que encontrou na música uma maneira de enfrentar a vida e contar suas histórias. Agora, suas canções permanecem como companhia para aqueles que aprenderam a gostar de samba ouvindo sua voz.
Nascido Uday Velloso, em 28 de novembro de 1941, na cidade de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, Benito Di Paula construiu uma trajetória singular. Ainda jovem, encontrou nas boates e nos palcos noturnos o espaço para desenvolver uma maneira própria de tocar piano, aproximando o instrumento da cadência dos sambas brasileiros.
Nos anos 1970, quando o país vivia a força de grandes intérpretes da música popular, Benito conquistou seu lugar com uma mistura de samba, romantismo e arranjos que valorizavam o piano e a percussão.
Com cabelos compridos, roupas extravagantes, anéis, colares e uma presença de palco impossível de confundir, tornou-se figura constante nos programas de auditório e um dos artistas mais populares daquele período.
Embora associado ao samba, preferia se definir como um sambeiro e pianeiro. Era sua maneira de afirmar a liberdade de criar sem ficar preso aos rótulos musicais.
Lançada em 1973, Retalhos de Cetim foi o grande marco de sua carreira. A composição conquistou o público com uma melodia envolvente e uma história carregada de emoção, consolidando Benito Di Paula entre os nomes mais importantes da música brasileira.
Vieram outros sucessos que ajudaram a construir a trilha sonora de uma geração: Charlie Brown, Mulher Brasileira, Bandeira do Samba, Como Dizia o Mestre, Tudo Está no Seu Lugar, Do Jeito Que a Vida Quer e Amigo do Sol, Amigo da Lua.
Eram músicas que falavam de paixão, saudade, amizade, esperança e das surpresas da vida. Histórias simples, reconhecidas por milhões de brasileiros, cantadas com a intensidade de quem parecia conhecer de perto cada sentimento descrito.
Seu talento estava justamente nessa proximidade com o público. Benito cantava o amor com alegria e a tristeza com delicadeza, fazendo do piano uma extensão de sua própria voz.
Mesmo após o auge comercial das décadas de 1970 e 1980, Benito continuou ligado à música. Nos últimos anos, voltou a gravar trabalhos autorais e dividiu projetos com o filho, o também músico Rodrigo Vellozo.
Em 2025, recebeu uma das homenagens mais emocionantes de sua carreira ao se tornar tema do desfile da escola de samba Águia de Ouro, no Carnaval de São Paulo. O enredo, Em Retalhos de Cetim, a Águia de Ouro do Jeito Que a Vida Quer, levou sua trajetória à avenida. Benito participou do desfile e recebeu o carinho dos admiradores.
Era o reconhecimento a um artista que ajudou a construir a identidade sentimental da música popular brasileira.
Aos 84 anos, a um mês de completar 85, Benito Di Paula encerra uma história de vida, mas deixa um repertório que continuará presente nas rádios, nas rodas de samba, nas reuniões de família e nas lembranças de quem viveu os tempos de ouro da música brasileira.
Seu piano silenciou. Sua voz, porém, seguirá encontrando novos ouvintes.
Porque existem artistas que continuam presentes sempre que uma canção volta a tocar. Benito é um deles.
O Brasil se despede de Benito Di Paula. Ficam os retalhos de cetim, as melodias, a saudade e a certeza de que sua música continuará atravessando gerações.
A despedida do cantor está marcada para terça-feira, 20 de outubro, das 9h às 15h, no Theatro Municipal de São Paulo, na Praça Ramos de Azevedo, no centro da capital. O público poderá prestar suas últimas homenagens.
O sepultamento acontecerá às 17h, no Cemitério Morumby, em cerimônia reservada aos familiares