Uma nação que conhece e preserva a sua cultura, que se orgulha da sua história, nunca será dominada, não ficará de joelhos diante das armas nem da tirania. Há homens quer encontram essa grande riqueza e generosamente repartem com o mundo. Homens que se deixam encantar pela magia das historias do seu povo, da sua gente.
Há 115 anos nascia em Sabará o poeta José Patrício, era como assinava José de Figueiredo Silva. José de Figueiredo Silva, nascido a 18 de novembro de 1908, realizou os primeiros estudos em Sabará, depois em Barbacena onde foi expulso por motim de pátio, terminando na Faculdade de Direito da UFMG, onde se bacharelou em 1935. Iniciou sua carreira de advogado lutando sempre pelos humildes oprimidos pelo poder. Por esta razão, também fruto do temperamento rebelde herdado do pai, o português Manuel José da Silva Patrício, Juscelino Kubitscheck o chamava de “advogado geral contra o Estado”. Educado em normas austeras de moral e religião, formou o seu caráter sob a inspiração dos pais e mestres que, na sua adolescência e juventude, souberam lhe dar úteis diretrizes .
A sua mãe era D. Maria Augusta de Figueiredo e Silva, sabarense nascida em 1908. Mas na configuração psicológica do seu espírito, ávido de conhecimento no campo de sua especialização intelectual, jamais dissipou do seu pensamento e da sua sensibilidade este traço característico de profundas raízes afetivas: o seu imenso e inabalável fervor por Sabará. Desse imenso amor pela terra natal, e como grande presente a nobre Villa Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará, chega até os nossos dias o livro “SABARABUÇU”, um tesouro que demonstra todo seu apreço pela cidade e pelo povo sabarense. Livro publicado após a sua morte pela esposa sra. Adília M. de Barros Figueiredo Silva e pelos filhos Ascânio, Erasmo, Maria Virgínia, Patrícia, Maria Adília e Maria de Fátima.
Apaixonado e disciplinado leitor e com vocação para a história, Figueiredo foi roubado da literatura pela magnifica carreira jurídica que exerceu na capital mineira. Recebemos da sua neta , Fernanda Merrighi, o livro digitalizado por uma por uma prima que traz uma singela dedicatória que transcrevemos:
“Querido Lucas, Guimarães Rosa escreveu que “as pessoas não morrem, elas ficam encantadas”.
Seu avô Patrício ficou encantado no coração e na memória de todos que o conheceram. Ele deixou estes poemas dedicados a nossa querida Sabará, que tanto amou. Que você ao ler este livro, publicado depois de seu falecimento, possa(...) a esta terra. Beijos, Tia Ginoca”. Apelido carinhoso de Maria Virgínia.
“Leal e heroica/ Nossa Senhora da Conceição/ do Sabará-buçu ,/velha fidalga e boa que se encolhe/no abraço verde das montanhas!/ (...) / Casas brincando de pique/formam ruas que sobem e descem ladeiras/ tortuosamente,/ graciosamente,/ como um presépio antigo./Jabuticabeiras/que anualmente/enchem a cidade/de molecadas e de gente grave e chique,(...) (Trecho de “O Meu Poema Bairrista”).
Como estudante trabalhou nas redações do Diário de Minas, Correio Mineiro e do Estado de Minas, contemporâneo de Carlos Drummond de Andrade, João Alphonsus e tantos outros. Grande ledor e com vocação para a história, Figueiredo foi roubado da literatura pela magnifica carreira jurídica que exerceu na capital mineira. Sempre foi poeta envergonhado e publicou suas produções disfarçado por pseudônimo. É autor de numerosos trabalhos no campo do Direito.
O escritor Mário Mendes Campos, amigo de José Patrício, diz:- “Em Figueiredo Silva concentravam-se os dons de uma criatura simples, generosa e comunicativa, amante do diálogo, tomado este em sua acepção de permuta amável e lúcida de ideias e concepções que se extravasam nesse jogo sutil e fascinante de palavras, ricas de substância interior, que envolvem de real encanto a arte da conversação”.
O Festival da Jabuticaba, hoje em sua 37ª edição, é sem dúvida o evento que mais divulga Sabará mundo afora. José Patrício em seu poema “Oferenda” nos dá conta da fama desta fruta símbolo da nossa cidade:
“Quando as jabuticabas ficam madurinhas,/ pintalgando as copadas seculares,/ a minha terra fica assim de forasteiros./(Mil e oitocentos a ida-e-volta na Central:/mais barato que qualquer diversão na Capital...)/Então há grande confusão de balaios e cestas e sombrinhas ./ E calcanhares/ que desculpam a falta de costume do sapata,/com o pé-de-moleque colônia.” Aqui podemos ver que não é de hoje que a jabuticaba é muito cobiçada.
Muito ainda teríamos para falar e escrever da vida e da obra poética de José Patrício... muito mais! Gostaríamos de sugerir a leitura do livro “Sabarabuçu”, ricamente ilustrado pro sua filha a artistas plástica Patrícia Figueiredo Moreira, disponível no acervo da biblioteca pública municipal. José Patrício faleceu no início de 1978, aos 69 anos.
Em entrevista concedida ao suplemento Literário, publicada 2017, o escritor Ruy Castro ao ser perguntado como via essa questão de ser mineiro ou carioca, pois nasceu em Caratinga mas foi para o Rio ainda menino, respondeu; “... a única pessoa que se preocupava com isso era o Zé Aparecido de Oliveira, que me dizia que eu precisava “fazer jus a ser mineiro”. Acho que, na visão dele, nunca fiz. Mas quem pode concorrer com Zé Aparecido em ser mineiro?”. Assim, com orgulho, podemos dizer; Mas quem pode concorrer com José Patrício em ser sabarense?
Muito obrigado por nos ensinar a amar esta terra!
*Texto: Sérgio Alexandre
Fonte: Livro “SABARABUÇU” José Patrício (Editora Comunicação), 1979.



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