Domingo, 23 de Agosto de 2026
16°C 27°C
Sabará, MG
Publicidade

A maior de todas as corrupções

A maior de todas as corrupções

Por: Glaucia Melo Clark
19/04/2016 às 17h12

O inimigo comum para garantir a identidade e a coesão ideológica de uma posição política hoje é a corrupção.

*Venício A. de Lima

“Se as palavras servem para confundir as coisas é porque a batalha a respeito

das palavras é indissociável da batalha a respeito das coisas”.

Jacques Rancière, O Ódio à Democracia, Boitempo, 2015

A geração do pós Segunda Grande Guerra se lembrará de que, na metade do século passado, crescemos sendo educados sobre a grande ameaça que pairava sobre o mundo ocidental cristão: o comunismo ateu.

Em tempos de Guerra Fria, sob a tutela dos interesses da política externa dos Estados Unidos, o comunismo vermelho transformou-se na encarnação do mal na Terra, o inimigo comum a ser combatido. Era isso o que aprendíamos em casa, na escola, no catecismo da igreja, no rádio, nas revistas infantis, nos jornais e nos filmes “de guerra”.

Na minha mineira e barroca Sabará, circundada por dezenas de igrejas Católicas do ciclo do ouro colonial, mais tarde cidade operária de movimento sindical forte, a mera suspeita de que alguém pudesse ser simpatizante comunista bastava para que se criasse um estigma social como se esse alguém fosse portador de doença contagiosa, a ser evitada a qualquer custo.

Com a vitória da Revolução Cubana, o inimigo comum ficou mais próximo e ainda mais perigoso: o comunismo e, claro, seus seguidores, os comunistas subversivos.

A oposição política ao Getulismo herdado pelo presidente João Goulart, democraticamente eleito, materializou o anticomunismo na luta sem tréguas contra a ameaça que seu governo representava de “vir a ser” controlado por comunistas.

A narrativa pública sobre essa ameaça e a necessidade inadiável de defesa da democracia “antes que fosse tarde demais” foi sendo consolidada. Um vocabulário específico foi costurando a nova linguagem que aprisionou o pensamento de vastas camadas da população com o protagonismo ativo da “Rede para a Democracia” que reunia diariamente em todo o país emissoras de rádio e jornais dos principais grupos de mídia da época: Os Diários Associados, O Globo e o Jornal do Brasil.

Não se constituiu exatamente em surpresa, portanto, quando na reta final para o golpe civil-militar de 1964, setores, sobretudo, da classe média urbana, saíram às ruas para defender os valores e tradições cristãs, o mundo livre e a democracia, para combater o inimigo comum, o comunismo e os subversivos comunistas.

A corrupção, sim, a corrupção aparecia apenas como uma coadjuvante do inimigo principal na narrativa publica dominante.

Deu no que deu. Em nome do anticomunismo, da democracia e em defesa dos valores cristãos, o país padeceu 21 longos anos de ditadura.

Mais de meio século depois, um novo inimigo comum

A Guerra Fria acabou (?). O comunismo deixou de ser o inimigo comum do Mundo Livre, do Ocidente Cristão. Lyndon B. Johnson não é mais presidente dos EUA e nem Lincoln Gordon seu embaixador no Brasil. Os militares brasileiros se dedicam às suas missões constitucionais. As Torres Gêmeas foram atacadas em Nova Iorque. O mundo se globalizou.

Muita coisa mudou, mas a exigência de um inimigo comum para garantir a identidade e a coesão ideológica de uma posição política (ou de um grupo) continua mais atual e necessária do que nunca.

O terrorismo e o islamismo – ou o terrorismo islâmico – passaram a ocupar o lugar de inimigo comum que antes pertencia ao comunismo no cenário internacional, a partir do início do novo século.

Entre nós, mais recentemente, o comunismo foi substituído por um velho e conhecido inimigo, coadjuvante nos idos de 1964: a corrupção da coisa pública e, claro, os corruptos.

Hoje, mais do que ontem, os oligopólios privados que controlam o que chega ou não ao conhecimento público – vale dizer, que controlam o espaço onde se forma a opinião dita pública – detêm o poder de definir a linguagem dentro da qual se enclausura a construção do inimigo comum.

Hoje, mais do que ontem, a definição do significado de cada uma dessas palavras – o que constitui corrupção e quem são os corruptos – faz parte essencial da própria disputa pelo poder.

A novidade entre nós, nos últimos anos, talvez seja a participação militante de setores do Judiciário que, seletivamente, escolhem qual corrupção devem investigar, e quais os corruptos devem ser julgados e condenados. Tudo com a colaboração ativa e decisiva da grande mídia e de seu vocabulário e linguagem uniformes.

O resultado de todo esse processo – que já presenciamos – é um país dividido ao meio, intolerante e cheio de ódio.

A corrupção é hoje o que o comunismo foi nos tempos de Guerra Fria. E os corruptos foram sendo seletivamente definidos como sendo somente os petistas, filiados, aliados ou apenas simpatizantes do Partido dos Trabalhadores. Combater o petismo e tirar os seus líderes do poder – mesmo que tenham sido democrática e legitimamente eleitos – ou impedi-los de tentar, democraticamente, voltar ao poder – foi aos poucos se constituindo na prioridade de vastas parcelas da população.

A memória coletiva, infelizmente, é curta. Muito curta. A maioria dos brasileiros talvez não saiba ou não se aperceba que os anos passam, mas as estratégias e os mecanismos de luta pelo poder se repetem e, muitas vezes, perpetuam os mesmos grupos e os mesmos interesses: a maior e mais antidemocrática de todas as corrupções é a corrupção da opinião pública.

Talvez um dia a História (com H maiúsculo) revele a todos os brasileiros o que de fato está a acontecer no Brasil de 2016.

A ver.

Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da Universidade de Brasília (aposentado), pesquisador sênior do CERBRAS-UFMG e autor de Cultura do Silêncio e Democracia no Brasil, EdUnB, 2015, dentre outros livros.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
CONTAS IRREGULARES Há 6 dias

Sabará tem seis nomes em lista do TCEMG de contas irregulares enviada à Justiça Eleitoral

Relação encaminhada ao TRE-MG reúne agentes ligados ao município com decisões definitivas sobre contas públicas; em dois casos, há determinação de restituição aos cofres públicos

IMPASSE Há 3 semanas

Cleitinho volta a pedir candidatura ao Governo de Minas em convenção do Republicanos, mas Marcos Pereira mantém decisão

Senador faz apelo emocionado durante convenção nacional, cita família, fé e apoio popular, mas presidente do Republicanos reafirma que decisão do partido está mantida

Revés Político Há 3 semanas

Cleitinho desiste da candidatura ao Governo de Minas após morte do irmão e emociona ao anunciar decisão

Senador do Republicanos afirma que não tem condições emocionais de disputar as eleições neste momento. Em vídeo ao lado da direção nacional do partido, Cleitinho chorou, pediu perdão aos mineiros e disse que precisa cuidar da família e da própria saúde emocional.

Cachês Limitados Há 4 semanas

ALMG aprova limite para cachês artísticos pagos com dinheiro público em Minas Gerais; projeto aguarda sanção

PL 5.764/2026 estabelece teto de R$ 700 mil para contratações com recursos estaduais e limite municipal de até R$ 500 mil, sujeito à receita do município; texto também amplia a transparência e valoriza artistas locais.

Patrimônio Cultural Há 1 mês

Festa de Nossa Senhora do Rosário de Sabará avança na ALMG e pode se tornar patrimônio cultural de Minas Gerais

Projeto de lei do deputado Professor Cleiton, construído em parceria com a vereadora Mariana, foi aprovado em segundo turno na Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e segue para votação definitiva em Plenário, reconhecendo a tradicional celebração de Sabará como de relevante interesse cultural do Estado.

Lenium - Criar site de notícias