Há tradições que não sobrevivem apenas nos livros ou nos arquivos. Elas continuam existindo porque alguém canta, alguém toca, alguém carrega uma bandeira e, principalmente, porque uma geração decide ensinar à seguinte aquilo que aprendeu com os mais velhos.
Em Sabará, a Folia de Reis atravessou gerações dessa forma.
Neste domingo, 20 de setembro, parte dessa história estará reunida no Centro Histórico durante o 1º Encontro de Folias de Reis de Sabará, que receberá 15 grupos de diferentes regiões de Minas Gerais. A programação será gratuita e terá como ponto principal a Praça Santa Rita, seguindo depois em cortejo até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário.
O encontro chega em um momento especial para uma das companhias mais antigas da cidade. A Folia de Reis de Sabará, apontada como o grupo mais antigo do município de que se tem registro, celebra 125 anos de tradição, segundo a organização do evento. Ao lado dela está outro nome importante dessa história: a Folia de Santos Reis do Bairro Borges, manifestação ligada a uma comunidade que também preserva seus próprios ritos, personagens e formas de celebrar.
Também chamadas de companhias ou ternos, as folias fazem parte de uma tradição religiosa de origem ibérica que ganhou características próprias no Brasil e se tornou especialmente forte em Minas Gerais.
Os grupos percorrem ruas e comunidades levando sua bandeira, seus cantos e instrumentos. Visitam casas, rezam, entoam versos e são recebidos por famílias que muitas vezes aguardam todos os anos pela passagem dos foliões.
A bandeira ocupa lugar central no cortejo. Ao redor dela seguem músicos, cantadores e personagens que variam de uma companhia para outra. Viola, violão, cavaquinho, pandeiro, caixas, sanfonas e outros instrumentos acompanham os versos entoados durante o chamado giro ou jornada.
Em Sabará, essa tradição ganhou caminhos próprios.
A Folia de Reis de Sabará guarda uma das histórias mais antigas da cultura popular do município.
Sua trajetória foi construída principalmente pela memória oral, passando entre integrantes e famílias ao longo das gerações. Há registros do grupo percorrendo diferentes regiões da cidade, entre elas o Centro Histórico, Nossa Senhora do Ó, Vila Santa Cruz, Adelmolândia, Paciência, Roça Grande, Caieira, Cabral, Fogo Apagou, Pompéu e outras comunidades.
Tradicionalmente, os foliões saem durante o ciclo natalino, visitando casas e levando seus cantos até o Dia de Reis, celebrado em 6 de janeiro.
No cortejo aparecem personagens ligados à narrativa da visita dos Reis Magos ao Menino Jesus. A Folia de Sabará conserva elementos como os Reis, a estrela-guia, os cantores, o bastião e, naturalmente, a bandeira, que conduz a companhia durante o percurso.
Ao completar 125 anos, a companhia chega ao primeiro encontro realizado no município levando consigo uma história construída muito antes de existirem registros digitais, fotografias em abundância ou redes sociais. Seus versos sobreviveram na voz de quem aprendeu ouvindo.
A tradição dos Santos Reis também encontrou abrigo no Bairro Borges, na região de General Carneiro.
A Folia de Santos Reis do Bairro Borges integra o conjunto das Folias de Minas e mantém forte ligação com a própria comunidade. O grupo reúne cerca de 35 integrantes e tem devoção aos Santos Reis e também a São Sebastião.
O calendário da companhia ajuda a revelar uma característica importante das folias: cada grupo guarda seus costumes.
No Borges, o giro começa depois do Natal. As visitas às casas seguem durante os primeiros dias de janeiro, passam pela celebração do Dia de Reis e continuam até o período dedicado a São Sebastião.
Reis, palhaços, cantores e instrumentistas formam a companhia. O repertório é acompanhado por instrumentos como violão, cavaquinho, caixas, pandeiros, surdo e bandolim.
São histórias diferentes dentro de uma mesma tradição. Cada folia carrega os costumes de sua comunidade, seus versos, seus músicos, seus personagens e sua maneira de cumprir a devoção.
A programação do 1º Encontro de Folias de Reis de Sabará começa ainda nas primeiras horas do domingo.
Entre 6h e 8h, acontece a chegada das companhias. Das 8h às 10h, os participantes serão recebidos para um café da manhã no Solar do Padre Correia.
As apresentações começam às 10h, na Praça Santa Rita, seguem até o meio-dia e retornam das 13h às 15h.
Às 15h, as folias seguem juntas em cortejo até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. No local haverá celebração religiosa e um dos momentos mais simbólicos da programação: a bênção das bandeiras e dos mestres.
Depois, o cortejo retorna à Praça Santa Rita, onde, às 17h, acontece o encerramento e a entrega de troféus aos grupos participantes.
Para quem conhece a Folia de Reis desde criança, será a oportunidade de encontrar outras companhias e reconhecer sons familiares. Para quem nunca acompanhou um giro, o domingo oferece a chance de observar de perto uma tradição que ainda ocupa ruas, entra nas casas e reúne pessoas ao redor da bandeira.
Sabará conhece bem esse tipo de história. Em uma cidade marcada por irmandades, festas religiosas, procissões e manifestações populares, muita coisa chegou até o presente porque houve quem decidisse continuar.
Na Folia de Reis, é assim há gerações: alguém ensina o verso, outro aprende o instrumento, alguém assume a bandeira e o caminho recomeça.
1º Encontro de Folias de Reis de Sabará
Data: domingo, 20 de setembro de 2026
Horário: das 8h às 17h
Locais: Praça Santa Rita e Igreja de Nossa Senhora do Rosário — Centro Histórico de Sabará
Entrada: gratuita
O encontro é viabilizado por meio de patrocínio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), com apoio institucional da Prefeitura de Sabará, por meio da Secretaria Municipal de Cultura.