Foram 25 anos acolhendo cães e gatos abandonados, doentes, vítimas de maus-tratos ou simplesmente deixados à própria sorte. Agora, uma das mais antigas iniciativas de proteção animal de Sabará chega a um momento decisivo: quem cuidará dos animais quando quem dedicou uma vida a eles já não consegue continuar?
A Associação Sabarense Protetora dos Animais e da Natureza, fundada em novembro de 2001, mantém atualmente cerca de 60 animais, entre cães e gatos. Mas a presidente da entidade, Vera Lúcia Ferreira Pinto Alves, afirma que chegou ao limite e não possui mais condições de manter o trabalho da mesma forma.
Durante todos esses anos, Vera contou principalmente com o marido, Renato Dionízio Alves, na manutenção do espaço e nos cuidados diários. Aos 80 anos, após sofrer dois AVCs, ele já não consegue desempenhar as atividades como antes.
“Eu não tenho condições de continuar”, afirma Vera.
A realidade familiar mudou e, além dos animais, ela agora precisa dedicar seu tempo aos cuidados com o marido e à própria família.
ASSOCIAÇÃO PEDE INTERVENÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO
Diante da situação, Vera procurou o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). No relato formal apresentado à Promotoria de Justiça, ela informou que a situação da Associação se tornou insustentável. Segundo o documento, a entidade recebia da Prefeitura de Sabará uma ajuda de custo de R$ 60 mil anuais, o equivalente a R$ 5 mil por mês, destinada principalmente à compra de ração. Ainda conforme o relato, esse valor representava a única ajuda financeira recebida pela Associação. Vera informou também que, desde 2025, os repasses deixaram de ser realizados e que, desde então, a entidade passou a arcar com os custos de ração e demais despesas mensais, situação que, segundo ela, tornou inviável a continuidade do trabalho nos mesmos moldes.Com a situação considerada insustentável, Vera pediu a intervenção do Ministério Público.O documento registra ainda que a presidente gostaria que o Município assumisse o recolhimento dos animais que permanecem sob responsabilidade da Associação.
Isso não significa, entretanto, que exista uma determinação do Ministério Público para que a Prefeitura faça o recolhimento. Trata-se do pedido apresentado pela Associação, que deverá ser analisado institucionalmente.
O QUE ACONTECEU COM OS REPASSES?
Outro ponto importante envolve a subvenção destinada à Associação.
Segundo o relato apresentado ao Ministério Público, a entidade recebia R$ 60 mil anuais, correspondentes a R$ 5 mil mensais, principalmente para auxiliar na compra de ração. Os repasses deixaram de ocorrer em 2025 e, segundo Vera, a Associação passou a arcar com as despesas.
A Folha de Sabará procurou a Prefeitura para entender o que ocorreu.
Em nota, o Município explicou que o repasse de 2025 não pôde ser realizado porque a Associação não protocolou, dentro do prazo legal, o plano de trabalho necessário para formalizar a transferência do recurso.
Segundo a Prefeitura, o documento deveria ter sido apresentado e aprovado até o fim de setembro. Sem essa etapa, o Município ficou legalmente impedido de efetuar o pagamento.
Portanto, a regularização da documentação era necessária para que o recurso público pudesse ser liberado.
REGULARIZAÇÃO
Em 2026, houve avanço.
Segundo a própria Vera, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente auxiliou a Associação na análise e regularização das pendências documentais.
A Prefeitura também informou que encaminhou neste ano projeto de lei autorizando nova subvenção à instituição, posteriormente aprovado pela Câmara Municipal.
Em relação aos valores que não foram repassados anteriormente, o Município esclareceu que a regularização posterior não gera automaticamente direito ao pagamento retroativo. Apesar disso, informou que está disposto a verificar, por meio das áreas técnica e jurídica, se existe alguma alternativa legal para a situação.
Vera reconhece o apoio recebido na regularização e afirma que não pretende transformar o momento em confronto.
“Eu não quero briga, não quero cobranças. Isso me desgasta”, diz.
O PROBLEMA VAI ALÉM DO DINHEIRO
Mesmo com a documentação regularizada, existe uma dificuldade que o recurso financeiro, sozinho, não resolve.
A manutenção de dezenas de animais exige trabalho diário.
“Precisa de limpeza, precisa de manutenção. Tudo isso meu marido fazia”, relata Vera.
Com Renato impossibilitado de continuar ajudando, Vera afirma que não consegue mais assumir essa rotina e também não pretende manter permanentemente o abrigo funcionando em sua propriedade.
É justamente aí que surge o maior desafio: encontrar um destino seguro para os animais.
PREFEITURA AINDA NÃO POSSUI ESTRUTURA PARA RECEBER TODOS
A Prefeitura reconheceu a importância do trabalho desenvolvido pela Associação ao longo de aproximadamente 25 anos, mas informou que o Município ainda não possui estrutura própria capaz de receber imediatamente todos esses animais.
Segundo a administração, estão sendo trabalhadas ações para estruturar uma política permanente para a causa animal, envolvendo controle populacional, acolhimento temporário, atendimento, adoção, combate aos maus-tratos e parcerias com entidades.
O objetivo, conforme a Prefeitura, é construir uma transição segura e uma política que não dependa exclusivamente do esforço individual de protetores e organizações.
UMA HISTÓRIA QUE AGORA PRECISA SER CONSTRUÍDA POR MUITAS MÃOS
O caso não precisa se transformar em uma disputa entre Associação e Prefeitura.
Há uma protetora que dedicou 25 anos à causa e hoje reconhece que não consegue mais continuar. Há exigências legais que precisam ser cumpridas para a utilização de recursos públicos. Há um Município que admite ainda não possuir estrutura para receber imediatamente dezenas de animais. E há um pedido formal apresentado ao Ministério Público.
Mas, acima de tudo, há cerca de 60 animais que continuam precisando de alimentação, limpeza, proteção e cuidados todos os dias.
A situação exige agora diálogo entre Associação, Prefeitura, Ministério Público e demais setores envolvidos com a causa animal, para que uma transição seja construída de forma responsável.
Depois de um quarto de século, um ciclo está chegando ao fim. O desafio de Sabará será garantir que o encerramento dessa história para uma família não represente o abandono de quem durante todos esses anos encontrou ali um lugar para ser cuidado.