Sociais Além Frio
População em situação de rua cresce em Belo Horizonte e revela drama que vai muito além das calçadas
Registros do fotógrafo sabarense Willian Douglas inspiram reflexão sobre o aumento das pessoas vivendo nas ruas, a dependência química, os desafios da reintegração social e as novaas políticas públicas adotadas na capital mineira.
29/07/2026 20h33 Atualizada há 3 horas
Por: Glaucia Melo Clark Fonte: FOLHA DE SABARÁ
Fotos: William Douglas

 

Por trás de cada colchão improvisado, de cada cobertor gasto e de cada rosto esquecido pela pressa da cidade existe uma história que, muitas vezes, ninguém conhece.

Foi justamente essa reflexão que acompanhou o fotógrafo Willian Douglas, parceiro da Folha de Sabará, durante um passeio pelas ruas de Belo Horizonte.

Enquanto registrava paisagens urbanas, a noite começou a cair. O frio típico do inverno mineiro também chegou.

Foi então que ele desviou a câmera dos prédios e voltou sua atenção para quem permanecia nas calçadas.

"Eu estava passeando por Belo Horizonte, fazendo algumas fotos, quando começou a anoitecer e o frio aumentou bastante. Naquele momento pensei: se eu já estou sentindo frio, imagina eles. A gente reclama de tanta coisa, mas tem um lugar para voltar, uma cama para dormir. Eles não. É muito triste registrar uma situação assim."

O relato do fotógrafo não busca apontar culpados nem oferecer respostas fáceis. Apenas convida à reflexão sobre uma realidade que cresce silenciosamente nas grandes cidades brasileiras.

Uma realidade complexa

Os números ajudam a dimensionar o problema.

Segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/UFMG), Belo Horizonte possui atualmente 16.115 pessoas vivendo nas ruas, um aumento de 4,1% em relação a 2025.

Em apenas cinco anos, o crescimento foi de aproximadamente 76%, passando de pouco mais de nove mil pessoas para mais de dezesseis mil.

Hoje, a capital mineira possui a terceira maior população em situação de rua do Brasil, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro.

Os dados mostram ainda que, de cada 100 brasileiros vivendo nas ruas, quatro estão em Belo Horizonte.

Nem todas as histórias são iguais

Especialistas que estudam o fenômeno alertam que é um erro tratar toda a população em situação de rua como um grupo homogêneo.

Há pessoas que perderam o emprego, romperam vínculos familiares, enfrentam transtornos mentais, sofreram violência doméstica ou simplesmente não conseguiram mais pagar aluguel.

Também existe uma parcela significativa formada por dependentes químicos, especialmente usuários de álcool e outras drogas.

Em muitos casos, a dependência leva ao rompimento dos laços familiares, dificulta a permanência em abrigos, compromete tratamentos e faz com que algumas pessoas recusem ajuda ou não consigam permanecer em programas de acolhimento por longos períodos.

Especialistas ressaltam, porém, que a dependência química é uma doença complexa. Embora esteja presente em muitos casos, ela não explica sozinha o aumento da população em situação de rua, resultado também da pobreza, do desemprego, da falta de moradia, de problemas de saúde mental e de outros fatores sociais.

Cada pessoa carrega uma trajetória diferente, o que exige políticas públicas capazes de compreender essa diversidade.

Novas leis buscam ampliar direitos e reorganizar os espaços públicos

Nos últimos meses, Belo Horizonte aprovou medidas que abordam diferentes aspectos dessa realidade.

Uma delas foi a Lei Municipal nº 12.081/2026, que permite às pessoas em situação de rua utilizarem o endereço de unidades de acolhimento como referência para emissão de documentos, cadastros, acesso a benefícios sociais, recebimento de correspondências e oportunidades de trabalho.

A expectativa é facilitar a reinserção social daqueles que desejam reconstruir suas vidas.

Ao mesmo tempo, outra legislação passou a prever a retirada de estruturas permanentes instaladas em vias públicas, como barracas improvisadas, lonas e construções conhecidas popularmente como "malocas".

O objetivo declarado é desobstruir calçadas e espaços públicos. A regulamentação da norma deverá definir como esse procedimento será realizado, mantendo o desafio de conciliar organização urbana com respeito aos direitos humanos.

Um desafio que exige mais do que julgamento

Nas ruas de Belo Horizonte convivem diferentes histórias.

Há quem esteja apenas tentando sobreviver até o dia seguinte.

Há quem lute diariamente contra a dependência química.

Há quem tenha perdido completamente os vínculos familiares.

Há também aqueles que recusam acolhimento por diferentes motivos, enquanto outros aguardam uma oportunidade para recomeçar.

Generalizar essas trajetórias seria ignorar a complexidade de um problema que cresce em praticamente todas as grandes cidades brasileiras.

O frio que a fotografia não consegue mostrar

As imagens feitas por Willian Douglas registram pessoas, cobertores, calçadas e sombras.

Mas existe algo que nenhuma fotografia consegue revelar completamente: o silêncio das madrugadas, a solidão, o medo, a dependência, a esperança de alguns e o abandono sentido por muitos.

Mais do que retratar moradores de rua, os registros convidam cada pessoa a enxergar seres humanos.

Porque antes de qualquer estatística, antes das leis, antes dos debates políticos e das discussões sobre segurança ou assistência social, existe uma pergunta simples que talvez explique o impacto sentido pelo fotógrafo naquela noite:

Como seria enfrentar o inverno sem ter para onde voltar?