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Único em Minas, eterno em Sabará
Paraíso dos Moralistas é reconhecido como bloco caricato de Relevante Interesse Cultural de Minas Gerais
07/02/2026 11h25
Por: Glaucia Melo Clark Fonte: FOLHA DE SABARÁ

Há blocos que desfilam. Outros atravessam gerações. O Paraíso dos Moralistas faz mais do que animar o Carnaval de Sabará: ele guarda memórias, provoca risos, conta histórias e mantém viva a essência da cultura popular.

Agora, essa trajetória ganhou reconhecimento oficial. O bloco foi declarado de Relevante Interesse Cultural de Minas Gerais, tornando-se o único bloco caricato do Estado a receber essa honraria.
O reconhecimento veio por meio do Projeto de Lei nº 3.444/2025, aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa de Minas Gerais e sancionado pelo governador em dezembro. A proposta foi apresentada em março de 2025, tramitou pelas comissões, recebeu parecer favorável da Comissão de Cultura e foi aprovada em plenário com 100% dos votos dos deputados estaduais. O projeto foi encampado pelo deputado Professor Clayton, presidente da Comissão de Cultura, a partir de uma sugestão nascida em Sabará, de quem conhece, ama e vive o bloco.
Fundado em 1949, o Paraíso dos Moralistas completa, em 2026, 77 anos de história, consolidando-se como o bloco caricato mais antigo de Sabará e um dos mais tradicionais de Minas Gerais. Sua origem é simples, como toda boa história popular. Quatro amigos, reunidos no bar que funcionava no antigo Teatro da cidade, sentiram falta de mais alegria no Carnaval e decidiram criar um bloco. O primeiro nome escolhido, “Bloco dos Tarados”, não agradou ao delegado da época, Capitão Agostinho, que considerou o termo inadequado para uma cidade tradicional e católica. Em resposta, veio a ironia: Paraíso dos Moralistas. O nome foi autorizado, com uma ressalva registrada em documento oficial — não seria permitida a participação de pessoas bêbadas.
Desde então, o bloco construiu sua identidade com irreverência, criatividade e improviso. Os primeiros desfiles ganharam as ruas com instrumentos artesanais feitos de lata de carbureto, tamborins de couro de boi, ternos listrados, máscaras, fantasias de mulher, sátiras políticas e muito bom humor. Com o tempo, surgiram os bonecões, que se tornaram uma das marcas mais queridas do Paraíso.

O estandarte do bloco resume sua alma: uma garrafa de pinga chamada “Segura o Tombo”, um saca-rolhas, um surdinho e a data de fundação. À medida que o bloco cresceu, vieram novos integrantes, instrumentos de sopro, puxadores de samba e a necessidade de um carrinho de som para conduzir a festa pelas ruas históricas da cidade.


Aos 50 anos, o Paraíso dos Moralistas ganhou um presente que atravessou gerações: o hino composto pelo sabarense Roberto Nazaré. A música, cantada por foliões de todas as idades, tornou-se um símbolo do Carnaval local e é entoada por diversos blocos quando descem as ladeiras de Sabará. Um dos trechos mais conhecidos, “Tapa na Boca”, carrega histórias do início do bloco, quando o feijão tropeiro era servido na mão e os instrumentos eram afinados com o calor de uma folha de jornal.


O reconhecimento estadual foi celebrado em um evento realizado no Clube Cravo Vermelho, reunindo integrantes do bloco, comunidade, representantes da cultura, do Legislativo municipal e estadual. Representando o Paraíso dos Moralistas, Omar dos Santos Carvalho destacou o simbolismo da conquista. “Hoje, o Paraíso deixa de ser apenas de Sabará. Ele passa a ser de Minas Gerais”, afirmou, emocionado.
Durante a cerimônia, foi lançada a camisa oficial do bloco para o Carnaval de 2026, com a inscrição “Relevante Interesse Cultural de Minas Gerais – 77 anos (1949–2026)” e o novo emblema, que passa a representar oficialmente o Paraíso dos Moralistas a partir deste ano. A camisa, como destacou Ruth Lies Scholte Carvalho, homenageia o próprio bloco e todos aqueles que, ao longo das décadas, mantiveram essa tradição viva nas ruas.


Em sua fala, o deputado Professor Clayton ressaltou a importância de proteger manifestações culturais autênticas em tempos de mercantilização do Carnaval. Em tom bem-humorado, afirmou que o Paraíso dos Moralistas “não pertence mais só a Sabará”, desejando vida longa ao bloco que agora é patrimônio de todos os mineiros.


Com 77 anos de história, o Paraíso dos Moralistas segue fazendo o que sempre fez: ocupando as ruas com alegria, crítica, memória e identidade. Agora, com o reconhecimento oficial do Estado, sua história ganha ainda mais força — não para mudar o bloco, mas para garantir que ele continue exatamente como sempre foi.