Após meses de estiagem, a volta das chuvas na Bacia do Rio das Velhas trouxe uma triste realidade para os moradores de Sabará: a mortandade de peixes. A situação, que também afeta municípios como Baldim, Jequitibá e Santana de Pirapama, gerou grande preocupação na comunidade sabarense. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram centenas de peixes de diferentes espécies flutuando nas águas escuras do rio, evidenciando o impacto ambiental e a necessidade urgente de respostas por parte das autoridades.
A Folha de Sabará recebeu diversos relatos e imagens da mortandade, incluindo vídeos de um córrego na região do Triângulo, que deságua no Rio das Velhas, onde um "mar de rejeitos" foi observado. Buscamos contato com a mineradora Global Mineração para esclarecer possíveis vazamentos de resíduos, mas até o fechamento desta matéria, não obtivemos retorno. Também tentamos nos comunicar com a Secretaria de Meio Ambiente do município, sem sucesso. Aguardamos um posicionamento de ambas as instituições para atualizações sobre o caso.
Segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas (CBH do Rio das Velhas), a mortandade de peixes é um fenômeno recorrente após o retorno das chuvas. O biólogo Carlos Bernardo Mascarenhas, pesquisador do NuVelhas – Projeto Manuelzão, explica que a água da chuva arrasta a poluição acumulada no solo durante a estiagem, incluindo agrotóxicos, rejeitos e até cinzas de queimadas. “Esse ano, as primeiras chuvas se mostraram particularmente prejudiciais devido ao acúmulo de poluentes. O impacto é evidente, afetando não apenas a bacia do Velhas, mas também a do Rio Paraopeba”, afirma Mascarenhas.
Além da poluição, a alteração abrupta na vazão do rio durante as chuvas revela outro problema: a presença de sedimentos tóxicos depositados no leito do rio ao longo das décadas. Mascarenhas destaca que essa dinâmica pode modificar as características do ambiente aquático, contribuindo para a morte de peixes.
O Comitê do Rio das Velhas permanece em alerta, acompanhando a situação. A presidenta Poliana Valgas ressaltou a complexidade do problema, que envolve 51 municípios e mais de 800 km de calha de rio, recebendo poluentes tanto de áreas urbanas quanto rurais. “Precisamos avançar no tratamento de esgoto e na contenção da poluição difusa para garantir a qualidade das águas e a permanência dos peixes na bacia”, enfatizou Valgas.
Ronald Guerra, vice-presidente do Comitê, acrescentou que a situação não pode ser banalizada e exige comprometimento das autoridades. “A morte dos peixes é um alerta para nossa condição civilizatória. A poluição de esgoto, a poluição difusa e o revolvimento de sedimentos tóxicos precisam ser enfrentados. É fundamental revitalizar o Rio das Velhas e concentrar esforços em sua recuperação”, afirmou.
Carlos Mascarenhas concluiu que a mortandade de peixes deve ser objeto de investigação e também uma oportunidade para discutir eventos climáticos extremos. Ele observa que, embora as ocorrências de mortandade tenham diminuído nos últimos anos, a intensidade deste ano é preocupante, possivelmente devido ao longo período de estiagem enfrentado em 2024.