Os azulejos que compõem um valioso legado histórico em Sabará, encontravam-se inicialmente no alto do prédio do Posto Santa Rita, hoje uma farmácia na Praça Melo Viana. Este conjunto, adornado com o desenho da igreja Santa Rita, foi uma encomenda do Sr. Nestor Albuquerque, que recorreu a profissionais de São Paulo para realizar tal feito, uma vez que não havia na região quem pudesse executar esse tipo de trabalho.
O artista não identificado deixou na obra apenas algumas letras assim dispostas “F.C.L.RR.” e a data “15.5-940”. Foi essa a forma que o sr.Nestor encontrou para demonstrar a sua indignação com a demolição da igreja no ano de 1939, assim nos informa o historiador José Bouzas que ouviu isso da filha do então proprietário D.Isaurinha. Em sua atitude de repúdio, o sr.Nestor Albuquerque também alertava para que aquele absurdo não se repetisse. Anos depois encerradas as atividades do posto, ali funcionou a rodoviária da linha Sabará/Belo Horizonte. A rodoviária funcionou até meados dos anos 1980 quando deu lugar a repartições da administração pública municipal.
ARTE MODERNA
A Semana de Arte Moderna, organizada por um grupo de intelectuais e artistas no Teatro Municipal de São Paulo, ao ensejo da comemoração do centenário da Independência do Brasil, com o objetivo de romper com o tradicionalismo cultural, assumiu a defesa de um novo ponto de vista estético e o compromisso com a independência cultural do país. Conhecida como a Semana de 22 (realizada de 13 a 17 de fevereiro de 1922) teve por principal mérito romper com o conservadorismo vigente no cenário cultural da época, que desprezava os valores nativos e não reconhecia uma identidade genuinamente nacional. Com efeito para além dos reflexos na literatura, na música, na pintura e outras áreas artísticas, o modernismo teve ainda o condão de despertar o interesse pela preservação dos bens integrantes do patrimônio cultural brasileiro enquanto portadores de referencia à memória, a identidade e ação dos diferentes grupos formadores da nossa gente. Mas poucos sabem que foi em Minas Gerais que os modernistas encontraram o suporte maior para os fundamentos da defesa do patrimônio cultural brasileiro. Em 1924, dirigiram-se a Minas Gerais os modernistas Mário e Oswald de Andrade, Paulo Prado, Olivia Guedes, Tarsila do Amaral e Blaise Cendras, sendo recebidos na capital mineira por Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Emílio Moura entre outros do grupo modernista de Belo Horizonte. Na ocasião, os modernistas paulistas fizeram uma excursão cultural pelas principais cidades históricas de Minas Gerais, a exemplo de Sabará, Ouro Preto, Congonhas, São João Del Rei e Tiradentes, registrando seus principais monumentos, conhecendo as suas lendas e personagens. Em tal cenário, as Minas do passado saltaram para dentro da poesia de Oswald de Andrade e pintura de Tarsila do Amaral, o que constituiu uma verdadeira “redescoberta” e promoção do barroco mineiro e, por consequência, a valorização da arte e da cultura brasileiras.
Praça Santa Rita
Em 1989, o conjunto de azulejos deixa o insignificante e obscuro lugar onde estava, onde ninguém o via e muito menos podia ser apreciado em toda a sua beleza, para ser instalado na praça Santa Rita. Compondo um significativo monumento, um chafariz ali construído e inaugurado no mesmo ano de 89, na administração do então prefeito Luiz Alves, junto com um lavabo de pedra sabão também a demolida igreja de Santa Rita, que propunha uma reflexão sobre a urgente necessidade de preservação da nossa história. Dando eco ao pensamento instalado no Brasil pelos modernistas de 22, assim dizia a placa: “Este monumento registra tristemente o transcurso do cinquentenário de demolição da Igreja de Santa Rita e presta um tributo a todos aqueles que se dedicam a preservação de nossas mais caras tradições e manifestações culturais”. Ali, agora em local nobre e digno, a obra passa ser vista, apreciada e conhecida pelo povo sabarense.
Demolição
Em 2005, a praça Santa Rita passa por uma nova mudança. Um deck é construído com a proposta de se criar um espaço cultural alternativo, o chafariz é demolido e os azulejos, assim como o lavado, são removidos e recolhidos as dependências da biblioteca pública municipal. Quanto a pia de pedra sabão que compõe a obra trata-se de uma pia do lavabo de uma das sacristias da igreja Santa Rita onde os padres faziam as abluções antes das missas. Desde a demolição, a pia foi deixada na Chácara do Lessa. Foi o artista plástico Carlos Roberto do Couto Perácio que a encontrou anos mais tarde, quando da primeira administração do prefeito Marcelo Dias (1967 – 1970). A pia foi usada num repuxo de um laguinho construído na praça Getúlio Vargas, segundo o professor Bouzas. Essa pia também compôs o chafariz construído em 1989 na praça Santa Rita e assim como os azulejos também foi recolhida á Biblioteca Pública Municipal quando da reforma e mudança do desenho da praça em 2005.
Resgate Histórico
Agora, no centenário da visita dos modernistas às cidades históricas de Minas Gerais, essas preciosidades voltam à cena, reforçando a importância da preservação da história e memória do país. Um novo chafariz está sendo construído no Centro Administrativo Prefeito Hélio Geraldo de Aquino, evidenciando o compromisso da administração pública com a valorização do patrimônio cultural de Sabará.
Para o prefeito Wander Borges, esse resgate histórico e cultural reflete o compromisso com a preservação da identidade de Sabará e o respeito pelo seu patrimônio. A devolução dessas peças à população é mais um passo na conservação do patrimônio histórico, artístico e cultural da cidade, que desempenhou um papel fundamental no nascimento da pátria mineira.