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Supergonorreia: o que se sabe sobre a infecção resistente aos antibióticos
De todas as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), a gonorreia é a mais resistente a antibióticos; entenda os riscos
26/01/2023 15h03
Por: Glaucia Melo Clark Fonte: TEXTO REPRODUZIDO DO SITE CNNBRASIL.COM.BR
Bactéria Niesseria gonorrhoeae, causadora da gonorreia CDC

gonorreia, causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae, é a segunda infecção sexualmente transmissível (IST) bacteriana mais comum. A transmissão acontece por sexo vaginal, anal ou oral desprotegido com alguém que tenha gonorreia ou de mãe para filho durante o parto. O uso correto e consistente de preservativos diminui significativamente o risco de transmissão sexual.

De todas as ISTs, a gonorreia é a mais resistente a antibióticos. O aumento da resistência à maioria dos antibióticos usados para tratar infecções gonocócicas foi relatado em todo o mundo, levantando preocupações sobre o eventual desenvolvimento de infecções intratáveis com sérias consequências para a saúde sexual e reprodutiva.

 

Nesta semana, foram registrados os primeiros casos de gonorreia resistente nos Estados Unidos. Embora esteja sendo chamada popularmente de “supergonorreia”, não se trata de um nova doença.

“As infecções pelo gonococo, popularmente chamada de gonorreia, que podem acometer tanto pessoas do sexo masculino como do feminino, nunca deixaram de acontecer. A gonorreia pode ser transmitida durante a atividade sexual, considerada uma infecção sexualmente transmissível. Pode acometer a topografia de várias partes do corpo, não só os genitais, mas também outros locais, como as articulações e até a manifestação dentro de órgãos internos, quando há um quadro disseminado”, explica o médico infectologista Álvaro Furtado, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

Fenômeno da resistência bacteriana

A resistência de microrganismos aos antibióticos é uma das maiores ameaças à saúde global atualmente. O aumento no número de bactérias resistentes aos medicamentos, chamadas popularmente de superbactérias, coloca em risco a saúde de humanos e de animais em todo o mundo.

O problema está associado diretamente ao uso excessivo e incorreto dos antibióticos disponíveis. Além disso, contribuem para a resistência fatores como as mutações genéticas presentes no organismo.

A resistência antimicrobiana associada à bactéria causadora da gonorreia, N. gonorrhoeae, apareceu logo após o início do uso de medicamentos antimicrobianos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o problema continuou a se expandir nos últimos anos, afetando medicamentos como tetraciclinas, macrolídeos (incluindo azitromicina), sulfonamidas e combinações de trimetoprim e, mais recentemente, quinolonas.

Em muitos países, a resistência à ciprofloxacina é extremamente alta, a resistência à azitromicina está aumentando e a resistência ou diminuição da suscetibilidade à cefixima e à ceftriaxona continuam a surgir (veja estudo abaixo).

A gonorreia com alto nível de resistência ao tratamento atualmente recomendado para gonorreia (ceftriaxona e azitromicina), mas também incluindo resistência à penicilina, sulfonamidas, tetraciclina, fluoroquinolonas e macrolídeos, são chamadas de superbactérias da gonorreia ou supergonorreia.

“A resistência a esse patógeno [agente causador de doença] é o grande problema nesses últimos anos pelo uso indiscriminado de antibióticos. Temos visto nas séries do Brasil, dos Estados Unidos e da Europa um aumento preocupante de resistência a vários antimicrobianos, motivo pelo qual alguns anos atrás a gente mudou a indicação de gonorreia no Brasil, tendo que tratar a gonorreia com medicação injetável, saindo de medicações apenas orais”, afirma Furtado.

Ameaça de gonorreia intratável

O combate à N. gonorrhoeae multirresistente requer duas abordagens: amplo controle da resistência aos medicamentos e controle da gonorreia. Ambos devem ser abordados em contextos mais amplos de controle global da resistência antimicrobiana, de acordo com a OMS.

A diminuição da eficácia dos tratamentos disponíveis contra a bactéria responsável pela doença e a falta de uma vacina para prevenir a infecção levantam preocupações sobre a possibilidade da gonorreia se tornar mais resistente ao tratamento, ou mesmo intratável, no futuro.

É possível surgir um caso de gonorreia que seja completamente intratável. Já apareceram casos, alguns anos atrás, na literatura nos Estados Unidos, com gonococo resistente a ceftriaxona e também até macrolídeos. Ainda temos opções para tratar com drogas de alto espectro, isso nos preocupa, por que se usar um antibiótico de alto espectro para o tratamento uma infecção relativamente simples é preocupante. Se começarmos a ter resistência a esses antibióticos de alto espectro, existe a possibilidade sim de termos uma resistência total ou dificilmente tratável

Álvaro Furtado, médico infectologista

A gonorreia é uma infecção sexualmente transmissível (IST) que, se não tratada, pode levar a sérios problemas de saúde, incluindo infertilidade em mulheres, transmissão da doença para bebês recém-nascidos e aumento do risco de HIV.

Vigilância

O tratamento inicial no Brasil é feito com dois antibióticos orais, ceftriaxona e azitromicina. A resistência bacteriana é identificada através da vigilância genômica.

“Você tem um ‘pool’ de gonococos que estão circulando no nosso país. Você colhe o material, manda para cultura, faz o teste para ver se tem resistência ou não, que podem ser testes genéticos ou de resistência bacteriana. A partir disso, você consegue estabelecer um painel de resistência para cada local do mundo”, afirma o infectologista.

A Organização Pan-Americana da Saúde recomenda que os países atualizem suas diretrizes nacionais para o tratamento da infecção por gonorreia com base nos dados mais recentes de vigilância da resistência antimicrobiana.

No Brasil, o Laboratório de Pesquisa em Infecção Hospitalar do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) realiza estudos relacionados à caracterização fenotípica e molecular de bactérias envolvidas em infecções associadas aos serviços de saúde com ênfase em bactérias multirresistentes.

“É importante que a gente faça a vigilância tanto da parte de resistência bacteriana quanto do tipo de gonococo que está circulando no mundo. Nesse caso, é muito mais uma vigilância de resistência, que é identificada através de testes laboratoriais que fazem o chamado antibiograma, que testa a bactéria, isola, coloca no meio de cultura e faz teste para vários antibióticos”, explica Furtado.

O médico, que atua no atendimento a pacientes do Hospital das Clínicas de São Paulo, destaca que a resistência também pode ser apontada em pacientes que apresentam dificuldade de cura da infecção.

“Outra forma de identificar resistência é quando você começa a ter vários pacientes que começam a tratar com os antibióticos convencionais, mas não respondem ao tratamento. O fato de uma falha de tratamento com esquema convencional é algo realmente preocupante, que pode ser notificado às autoridades sanitárias”, diz.

Embora existam aumentos documentados na resistência da bactéria da gonorreia aos antimicrobianos, apenas 36% dos países das Américas monitoram sistematicamente essa resistência para apoiar as decisões de tratamento, segundo a Opas.

Os antibióticos são medicamentos capazes de matar ou inibir o crescimento de bactérias. A sua eficácia está associada diretamente ao agente causador da infecção. A resistência aos antibióticos acontece quando determinada bactéria se modifica em resposta ao uso dos medicamentos.

“São as bactérias que se tornam resistentes e não os seres humanos. Com o uso inadequado de antibiótico, pode ocorrer um processo de ‘seleção’: enquanto as bactérias ‘sensíveis’ são eliminadas a partir do tratamento, as ‘resistentes’ permanecem e se multiplicam”, explica a pesquisadora Ana Paula Assef, da Fiocruz.

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