SÁBADO, 23 DE MAR DE 2019
Untitled Document
TEMPO BÃO!...

Luiz Alves

A gente vestia a camisa amarela, onde se lia “Xi-im”. Era o nosso jeitão de falar “cheinho”. E 30 companheiros saíam uniformizados pela velha Sabará para nos encher, ou melhor, nos entupir de cerveja. Há mais de 40 anos, cara...

Barnabé ia na frente, desviando o trânsito, abrindo caminho para uma moçada feliz que bebia, se divertia e aprontava. Sejamos cuidadosos com esse “aprontava”, pois ninguém ultrapassava os limites. Quem o fizesse teria que se acertar com o Zu, que sentava a “mandioca” no folgado. Era o “manjoqueiro” oficial. Mas isso quase nunca ocorria. Éramos bagunceiros sim, porém ajuizados e respeitadores.

Mas chegou o tempo da aposentadoria. Alguns haviam se casado, e os outros já caminhavam para a seriedade da guilhotina conjugal. Daí decidimos pôr fim às nossas etílicas atividades. Íamos fazer o enterro do “Xi-im”. Mas em grande estilo!

Na noite anterior ao triste evento, saímos com um boneco enorme, que trajava nossa honrosa e gloriosa camisa. Sentamos a ilustre figura nas cadeiras dos botecos. O boneco se divertiu conosco, e só paramos a farra alta madrugada. No outro dia, bem cedinho, ainda ressaqueados, emendamos o gole até o anoitecer do adeus final. Fomos à Praça de Esportes para velar o boneco que representava o “Xi-im”. Colocamos o falecido no chão, rodeamos o defunto com velas, iniciamos o velório. E haja cerveja! Recordam-me duas belas figuras que não viajam mais conosco: Zé Carlos Hoehnne e Wanderley Rocha. Enquanto o Inhô se desmanchava em lágrimas sobre o “Xi-im”, sem largar o copo, o Wanderley, garrafa na mão, o consolava:

- Calma, Inhô. O “Xi-im” não morreu. Tá é se fazendo de bobo.

Em outra roda, o Zé Carlos, chinelinho de dedo e completamente peladão, falava revoltado:

- Tem baile no Farol. Estou vindo de lá agora. Não me deixaram entrar só porque estava de chinelo de dedo. Eta povinho metido a besta!

50 anos! Tempo bão em que a gente se divertia apenas com cerveja, sem apelar para outros recursos. Hoje, na companhia de esposas, filhos, netos e sob o peso de mil responsabilidades, só nos resta recordar aquele tempo gostoso de nossa bem vivida juventude.

LUIZ ALVES
SIGA A FOLHA DE SABARÁ:
2015 © Todos os direitos reservados