SÁBADO, 19 DE JAN DE 2019
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Prisioneiros

Luiz Alves

O corpo descera à sepultura. O povo se dispersava, e o João Bomba resolveu andar pelo Cemitério Municipal. Uma prece pelo pai, outra para o amigo Taco... Que o céu os tenha! Foi quando percebeu que todas as almas encarnadas tinham saído e já passava das 17 horas. Correu até os dois portões. Tudo trancado. Teve início a suadeira.

- Deus! Não consigo pular o muro. E se a noite me pegar aqui?

Deus acudiu. Passou o Amaro e viu o João naquele aperto.

- É você, João? Pensei que fosse alma penada. Vou dar um jeito.

Jeito conseguido: uma bendita escada. Amaro passou-a pelas grades. João agradeceu aos orixás, escalou os degraus da salvação e saltou para o alívio. Tremendo azar: cai justamente cima do Nô Viana.

- Essa o Luiz Alves tem que saber, gargalhou o Nô.

E fiquei sabendo. Pela boca do próprio João, que não quis dar ao Nô o prazer de narrar-me o dramático episódio.

Causo mais ou menos parecido se deu com professor do Zoroastro, nosso amigão Toninho. Ele mesmo contou o ocorrido. Tinha ido visitar um amigo que ficara meio lelé da cuca e fora passar uma temporada em hospital psiquiátrico. O professor foi visitá-lo. Cumprida a caridosa obrigação, Toninho se despediu e caminhou até a porta de saída. O porteiro botou-lhe a enorme mão no peito.

- Aonde pensas que vai, maluquinho malandro!

- Uai, já fiz minha visita e tô indo embora.

- Embora uma pinoia. Tem bobo aqui não. No meu plantão doido não foge. Segurança, bota camisa de força neste espertinho aqui!

- Cê ficou maluco? Sou professor de matemática, cara!

Aí é que o trem piorou.

- Professor de matemática? Tá provado. Tu és doido mesmo.

Documentos? Ficaram no trabalho. Telefone de lá? Não sabia o número. Chegam o diretor do hospital e o paciente amigo do Toninho. Foi a salvação! O doidinho falou com a lucidez dos lunáticos:

- É melhor deixar o professor ir embora, doutor. O caso dele é bem pior que o nosso. Ele vai é pirar os psiquiatras. Se ficar, endoidece a gente mais ainda. Libera o homem, e que se dane o mundo!

Liberaram o homem. E o pobre mundo virou esta loucura.

LUIZ ALVES
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