QUINTA-FEIRA, 23 DE JAN DE 2020
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Pelos bares da vida

Luiz Alves

Devagar, minha senhora. Boteco nem sempre é antro de perdição, de bebedeira, reduto onde os lares se desmoronam. Não seja tão puritana. Para o puritano, madame, tudo é impuro.

Sei que a senhora tem o direito de expressar suas opiniões. E eu, o direito de não levá-las a sério. Há botecos onde as conversas quase nunca rastejam pelos rodapés da moralidade. Ouvem-se altos papos. Quer exemplo? Estávamos na Pastelaria Sette e um cambaleante amigo viu passar moçoila mui bela e formosa. Ele esticou os olhos. Outros olhos fizeram igual. Após significativo silêncio, o colega suspirou alto, a língua já grossa:

- Deus faz, a natureza creia e nóis preceia.

Um amante da pureza de nosso vernáculo indignou-se ante tamanha ofensa ao nobre idioma de Camões e esbravejou:

- Cala-te, ó ignorância em processo. Achas que aquela beldade vai se deixar seduzir por um verme inculto como tu és?

- Sem ofensa, acudiu alguém. Não negue ao amigo a doce virtude da esperança. Como disse o Apóstolo Paulo, a fé é um modo de possuir o que ainda se espera. E este amigo tem fé!

Outro parceiro, completando os copos, afirma convicto:

- Só existem impossibilidades para os tímidos e vacilantes. A fé é a força da vida, já disse Tolstoi!

- Sejamos realistas (emendou um, todo sorrisos). Vejam nossos cabelos brancos. Eles arquivam experiências e... muitas saudades. Não dá mais. Conformemo-nos, coroada amiga!

A gatinha foi em frente, ante o olhar babão da freguesia do Fernando. Aí o João Bomba, elevando ainda mais o nível da conversa, avaliou a nostalgia dos olhares e soltou esta pérola:

- É isso aí. Deus dá a vontade, mas tira a possibilidade.

Alto saber. Cristalina filosofia de boteco, minha senhora.

LUIZ ALVES
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