TERÇA-FEIRA, 13 DE NOV DE 2018
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POLÍTICA, FUTEBOL E VAGALUMES

Luiz Alves

Sempre encontramos nos livros algo que nos amplia os horizontes. E às vezes uma pequena frase, ou um simples verso, ensinam mais do que mil discursos de filósofos e políticos. Lembro-me de uma poesia do Manuel Bandeira. Ele não pede a Deus glória, dinheiro ou dádivas dos anjos. Assim termina seu poema: “Quero é a delícia de poder sentir as coisas mais simples”.

A vida imita a arte, já disseram. A nossa conversa ia tão animada quanto civilizada. E passava de futebol para eleição com incrível facilidade.

- Tanto essa droga de presidente quanto esse candidato maluco são criações de seu partido. Não fossem os escândalos, ninguém saberia deles.

- O Galo só joga com a torcida berrando no cangote do time, cara!

A discussão subiu a Pedro II e adentrou animada pelo Barroco. Sentado no seu canto estava o Dinho, filho de Sô Romualdo Lopes, cabelos brancos bem apanhados na nuca e aquela tranquilidade de quem brincou a infância no adro do Carmo. Nem olhou direito pra nós e já foi perguntando:

- Há quanto tempo vocês não veem um vagalume?

Um olhou para o outro. O outro olhou para o um. Entreolhamo-nos.

- Lá no mato ainda aparecem alguns. Fazem lembrar nossa infância.

- Pois é. Não havia televisão, nem CEMIG, e a gente corria atrás das luzinhas pelas ruas escuras de nossa velha Sabará.

- Poxa, havia até me esquecido desse bichinho.

Por breve instante a política e o futebol saíram de pauta. A turma se debruçou na lembrança de um tempo em que insetos voadores brilhavam docemente em nossas felizes noites mal iluminadas. Voamos na saudade. Mas a cervejinha chegou, e logo voltamos às roubalheiras e às botinadas. Porém, por breve momento, deixamos de lado a tosca realidade e viajamos na poesia das pequeninas luzes que piscavam em nossa meninice.

Ah, queridos pirilampos, o seu brilho, mesmo tão pequenino, muita falta nos faz nestes tempos de escuridão. Vocês ainda voam por aí, mas não os vemos mais. A singeleza de seu doce piscar se apagou ante a força brutal das hidrelétricas. E enquanto hoje paramos os rios e gastamos bilhões para iluminar nossas trevas, Papai do Céu nos mandava - de graça! - um bichinho alado que tremeluzia sua poética simplicidade nas noites de nossa perdida infância. Poética simplicidade ou poética grandeza? Sei não. Talvez a verdadeira grandeza more na humilde choupana onde repousa a simplicidade.

A pergunta do amigo vale por um poema. É uma indagação que nos remete aos versos do grande Manuel Bandeira. Afinal, é mesmo uma delícia poder sentir as coisas mais simples.

Deus seja louvado! O Dinho também!

LUIZ ALVES
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