SEGUNDA-FEIRA, 13 DE JUL DE 2020
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Velhos e calados sons

Luiz Alves

Antigamente o mundo nos chegava pelos ouvidos. TV era sonho distante. Cinema? Se sobrasse grana. As ondas do rádio é que falavam da vida lá fora.

- A Marlene é uma festa, mas dizem que a Emilinha Borba, com aquela pintinha nas bochechas, é mais bonita. Mas cantora mesmo é a Ângela Maria, garantia o Chico, meu irmão, botando na vitrola o Babalu.

E a gente voa nas asas do tempo. Mas antes que os nobres leitores me julguem um idoso escravizado por saudades, devo informar-lhes que cocoroca é a vovozinha. Não é pecado de vez em quando olhar no retrovisor da existência e viajar esses e alguns outros sons que acalentavam o gostoso sossego da nossa antiga Sabará.

- O relógio do São Francisco deu nove horas. Todo mundo pra cama.

- Morreu gente bacana. O sino do Carmo toca que é só tristeza...

- O sino da capelinha do Hospital! Padre Pedro e Irmã Benigna aguardam.

- A aula vai começar. Dona Vênica já deu a ordem pelo sino do Paula Rocha.

- Vai trabalhar, vagabundo! Não escutou o apito da Belgo!?

- O trem para Caeté está no horário. A Maria Fumaça gritou lá na Reta.

- Oba, novena das Mercês! Os sinos tilintam que o Modesto subiu o Morro, com roleta e maçãs. Cai nessa... É mais fácil arrancar o cachimbo do boneco.

- A sirene do Cine Borba Gato tá berrando. Hoje é dia de Flash Gordon.

- O Zé Leiteiro fonfonou aí fora. Corre, gente, é a carrocinha do leite!

E minha mãe trabalhando e cantando. Quando não ralhava com a gente.

O Nô Viana me diz da saudade dos velhos e calados sons. Pois é, amigo, hoje nós também andamos calados. Calados e sozinhos, corremos pela vida com os olhos arregalados no celular, ou no computador, na doida busca pela barulheira do mundo. Ouvindo com os olhos. E não há como fugir desse louco agito. Mas os sons de outrora - com a cumplicidade de nossa imaginação - evocam tempo de simplicidade. Tempo em que a vida corria mansamente a nos mostrar, em sua suave sabedoria, que a felicidade, causa última de nossa existência, não habita as grandes ambições. A felicidade mora é nas pequenas coisas.

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LUIZ ALVES
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