QUINTA-FEIRA, 09 DE ABR DE 2020
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Há controvérsias...

Luiz Alves

Meu amigo é do contra. Se a humanidade concorda, ele discorda. Se a gente diz A, ele grita que é B. Uma vez me informou que o Dario jogara mais bola que o Pelé.

- Céus! O próprio Dadá fala que não aprendeu a jogar futebol porque estava ocupado em fazer gols! Então Rivelino, Zico, Reinaldo, Tostão, Ronaldinho Gaúcho...

Tudo perna-de-pau. Um dia o flagrei na Praça Santa Rita, folheando a Bíblia.

- Essa tal de Bíblia, sei não...

O canalha discordava até de Deus? Sentei-me e aguardei, olhos arregalados.

- A estória de Adão e Eva, por exemplo... Revoltam-me os machistas quando jogam a culpa da expulsão do Paraíso em cima da Eva. Ora, a Eva é dez!!! O negócio foi outro. Um dia, enquanto o palerma do Adão, o Palermadão, dava nome aos bichos, Deus chamou a serpente. Queria testar a obediência do casal. A cobrinha avisasse Eva de que, comendo certo fruto, ela e o marido conheceriam o bem e o mal.

- Oba! clamou saltitante a mamãe Eva. Vamos ficar de cuca legal!

- Tem mais. Comendo do fruto, vocês serão expulsos e vão conhecer a morte.

- Beleza, dona Jararaca. A morte é bom motivo para se valorizar ainda mais a vida. Além disso, este Jardim do Éden está muito mal decorado pro meu gosto.

- Era esse o plano do Criador. Garota esperta, a Evinha! Valera a pena livrar o Bobadão de umas costelas. Eva colheu o fruto e... filosofou-se. Besteira foi dar um pedaço pro Babacadão. O Desajeitadão engasgou-se. Justamente o pedacinho do conhecimento do bem ficou-lhe agarrado na garganta, entre o cérebro e o coração. E o Idiotadão, com a sabedoria do bem entalada na goela, digeriu apenas, e prazerosamente, a noção do mal. Apalpou seus músculos com tolo orgulho e achou-se o novo todo-poderoso. (O amigo virou-se para mim). Já percebeu que apenas os homens têm gogó saliente? Mais macho, mais saliente... Daí os machões serem tão garganta, só papo! Mas o poder não se mantém com brutalidades. Ele é fruto da correta utilização da força. Eva riu da boba arrogância do Palermadão e, como quem não quer nada, seguiu a vida exercendo sua sábia e discreta autoridade. Como o fazem suas descendentes até hoje.

O amigo encerrou a conversa e voltou ao Livro dos Livros. Eu o aplaudi em silêncio e saí. De fininho, com todo o cuidado. Para ele não mudar de opinião.

LUIZ ALVES
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