SEXTA-FEIRA, 19 DE JUL DE 2019
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Pescaria

Luiz Alves

O trabalho nos dignifica e enobrece? Mentira! O que nos faz nobres e dignos é o lazer. Foi pensando nisso que nos mandamos para as margens do São Francisco. Lindo e imenso, o rio abraçava com suavidade a ilha onde ficamos. Que paisagem!

A turma, fanática por pescaria, foi chegando e jogando os anzóis. Decidi não espetar as pobres minhocas. Que ficassem os peixes no Velho Chico, e os humanos se acomodassem às margens, admirando o doce caminhar das águas. Isso bastaria! Bom mesmo era conviver com o pessoal que tagarelava sua alegria pelos barrancos. Ao cair da tarde, lá vinham eles, cheios de varas e decepções. Nada de peixes. Mas à nossa espera havia picanha, mil latas de cerveja e cachacinhas da melhor qualidade que, ao contrário dos peixes, se ofereciam sem o menor pudor.

- Amanhã - prometia o Guilherme - aqueles malditos peixes serão arrancados dos abismos das águas! Quem viver verá!

Vivi e não vi. O Roberto acessou a internet e anunciou chuva. Na expectativa do temporal, fui dormir. Sonhei que, da proa dos barcos, eu afrontava a procela, ordenando que as ondas se acalmassem. E mandei que atirassem as redes, ou seja, os anzóis. Os assustados e incrédulos pescadores diziam que era inútil, já haviam tentado em vão. Repeti a ordem. E a pescaria explodiu em fartura. Sonho tanto evangélico quanto ilusório.

Último dia. Um baita solsão desmentia o Roberto. Outra vez nada de pacus, dourados e curimatãs. Porém, voltamos felizes. As caixas vinham vazias de peixes, mas a alma, repleta de belas recordações, voava em sossego. Era esse o objetivo maior!

Os peixes venceram. Mas é certo que existem derrotas mais triunfantes que muitas vitórias. Bom consolo esse. Outra consoladora certeza: à beira da estrada, havia boas peixarias...

LUIZ ALVES
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