TERÇA-FEIRA, 21 DE MAI DE 2019
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Mancadas de carnaval

Luiz Alves

Eu o conheci quando era apaixonado noivo de uma bela garota sabarense. Casamento marcado e coisa e tal. Ele morava na capital e vinha noivar nos fins de semana. A gente até ficava com inveja, tal a fofura da menina. Mas tornou-se grande amigo. Agora, séculos depois, a coincidência nos fez sentar no mesmo banco do ônibus. E ele me conta um caso antigo que lhe acontecera em certo carnaval.

- Era um sábado e eu estava cansadíssimo. Pelo telefone, propus à minha noiva faltarmos ao Baile do Marinheiro, no Iate da Pampulha, como fazíamos todo ano. Começaríamos o carnaval no domingo, em grande estilo, no Cravo Vermelho.

Ela topou. Disse que ficaria em casa, com a mãe, bordando, pois era muito prendada a linda noivinha. Guardaria sua fantasia de marinheira para o próximo ano.

Mas é o negócio que eu sempre digo: Deus faz tudo certinho, mas o capeta costuma interferir. Ele realmente já estava para cair no sono quando toca a campainha.

- Ainda não está pronto? Troque os panos e vamos ao Baile do Marinheiro. A mesa já está reservada, com lugar para você e sua noiva.

Eram dois amigos que chegavam em Brasília. Não havia como deixar de acompanhá-los. Sempre que aparecia por lá, eles ficavam à disposição, tratando-o com enorme fidalguia, como se dizia naquele tempo.

- Puxa, acabei de ligar pra noiva dizendo que iria dormir. E a coitada já deve estar de camisola. Deixa o pau quebrar. Viva a marujada! Amanhã eu lhe explico tudo.

Tomou umas caipirinhas, vestiu-se de Capitão Gancho, hasteou a bandeira de pirata no convés e nem esperou o vento inchar as velas: rumou mar adentro.

O baile estava excelente. O distraído acabou de encher o gargalo e saiu de vez do sério. Logo estava rodando pelo salão, pendurado no cangote de duas gatonas tão lindinhas quanto mal faladas. Uma jogava para o alto seu chapéu de capitão e a outra atirara longe o gancho da mão, liberando-lhe a mão boba. Foi quando sentiu uma luzona deste tamanhão na cara. Era a TV Itacolomi cobrindo o baile.

- Como é, folião, já decidiu com qual das duas vai ficar?

- Qualé, malandro, diz ele com a língua grossa. Isso aqui é só quebra-galho. Eu até sou noivo. Olha aqui minha aliança.

E mostrou a mão direita, completamente desprovida do anel, pois o bandido o deixara na gaveta. Tonto como estava, nem se lembrava da infame providência.

- Mas amanhã - continuou o vagabundo - o banzé vai ser lá no Cravo Vermelho de Sabará. Minha noiva, tadinha, a esta hora está puxando o ronco.

Não estava. A infeliz chifruda estava é na sala com a mãe, e as duas com os olhos pregados na TV Itacolomi, mal acreditando no que viam. A sogra espumava:

- Está vendo, minha filha? Não te falei que esse cachorro não prestava?

Ele, engolindo o choro, terminou a narração:

- No domingo, cedinho, recebi um telefonema convidando-me a não mais dar as caras por lá. A ex-noiva já arrumara outra companhia para o Cravo Vermelho: o canalha do Tião, seu atual esposo. Foi assim que eu perdi o grande amor de minha vida. Restou-me casar com uma jararaca das mais peçonhentas, cujo principal objetivo de sua maldita existência é não me deixar ser feliz.

Em Sabará só havia duas pessoas educadas: o Antônio Rocha e o Schubert de Paula. Que o resto era cavalgadura braba. O bandido me instalou também nessa grande estrebaria! Sendo assim, já que o querido Antônio cometeu a indelicadeza de nos deixar, resta-nos apenas o Schubert. Segura a onda aí, amigo!)

LUIZ ALVES
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